Na maioria das vezes, quem se machuca em um terremoto não é ferido pela terra que treme. É ferido pela reação. Como ex-bombeiro, aprendi que os poucos segundos entre o primeiro solavanco e a decisão de se mover são decisivos, e é justamente aí que os pequenos erros cobram o preço mais alto. Um corte de vidro, uma queda pela escada, um objeto pesado que despenca da estante: quase nada disso é inevitável. São consequências de gestos automáticos, de conselhos antigos que ainda circulam de boca em boca e de uma preparação que ficou para depois e nunca aconteceu.
No Brasil, a percepção comum é a de que terremoto é problema de outros países. Não é bem assim. O Acre, o Amazonas e o litoral de estados como o Ceará e o Rio Grande do Norte já registraram tremores sentidos pela população, e eventos distantes, como sismos na costa do Peru ou do Chile, chegam a balançar prédios altos em cidades grandes. Em Portugal, sobretudo no arquipélago dos Açores e na região de Lisboa e do Algarve, o risco sísmico é real e faz parte da memória histórica. Ou seja, vale a pena saber o que fazer, e vale ainda mais saber o que não fazer. Reuni aqui os sete erros que mais aumentam o número de feridos, com a explicação de por que cada um é perigoso e o que colocar no lugar.
- Erro 1: correr para fora enquanto o chão ainda treme
- Erro 2: ficar embaixo do batente da porta
- Erro 3: usar o elevador
- Erro 4: não proteger a cabeça e o pescoço
- Erro 5: conviver com móveis e objetos pesados sem fixação
- Erro 6: voltar cedo demais para dentro por causa das réplicas
- Erro 7: não ter plano nem kit de emergência
- Um comentário sobre o mito do “triângulo da vida”
- Fontes oficiais
Erro 1: correr para fora enquanto o chão ainda treme
É o instinto mais comum e um dos mais perigosos. Quando o chão começa a se mexer, o corpo grita para fugir do prédio. O problema é que a área ao redor da saída costuma ser a mais mortal durante o tremor: é onde caem vidraças, telhas, pedaços de reboco, letreiros, muros e fiação. Além disso, correr sobre um piso que balança aumenta muito o risco de tropeço e fratura, e portas de vidro estilhaçam com facilidade.
O que fazer no lugar: durante o abalo, o mais seguro quase sempre é ficar onde você está e se proteger. Deixe para sair depois que o tremor parar, com calma, olhando o caminho. A saída apressada tem hora, e essa hora não é durante a sacudida.
Erro 2: ficar embaixo do batente da porta
Esse é um conselho antigo que resiste ao tempo e continua sendo repetido como se fosse verdade absoluta. A ideia surgiu de casas de adobe muito antigas, em que o vão da porta era, de fato, uma das poucas estruturas que sobravam de pé. Nas construções modernas, de alvenaria e concreto, o batente não é mais forte que o resto da parede e não oferece proteção especial contra a queda de objetos, que é o que mais fere as pessoas.
Pior: parada embaixo da porta, a pessoa fica de pé, exposta, e a própria porta pode balançar e prensar dedos ou o corpo. O que fazer no lugar: esqueça o batente. Procure abrigo sob um móvel resistente, como uma mesa firme, e proteja a cabeça. Um vão de porta só serve como último recurso quando não há absolutamente nada mais perto para se abrigar.
Erro 3: usar o elevador
Parece óbvio quando lido em texto, mas no susto muita gente corre para o elevador achando que vai descer mais rápido. Durante um terremoto, o elevador é uma armadilha. A energia pode faltar e deixar as pessoas presas na caixa; os trilhos podem se desalinhar; e, num prédio danificado, ficar suspenso entre andares transforma uma situação já difícil em um resgate demorado e arriscado, tanto para quem está dentro quanto para as equipes.
O que fazer no lugar: durante o abalo, proteja-se onde estiver. Só depois que o tremor parar, use sempre a escada para sair, com atenção aos degraus e ao corrimão. Se você ficar preso num elevador durante um tremor, mantenha a calma, acione o alarme e aguarde; forçar as portas ou tentar escalar é mais perigoso do que esperar o socorro.
Erro 4: não proteger a cabeça e o pescoço
Quando eu atendia ocorrências, a diferença entre um susto e uma lesão grave estava muitas vezes em um detalhe simples: se a pessoa havia protegido a cabeça ou não. A maioria das lesões em terremotos vem de objetos que caem, não do desabamento do prédio inteiro. Quadros, luminárias, prateleiras, livros pesados, o próprio teto que solta fragmentos, tudo isso atinge primeiro a cabeça, o rosto e a nuca de quem fica exposto.
O que fazer no lugar: adote o gesto que os bombeiros e a Defesa Civil recomendam e que resume tudo, abaixar, cobrir e segurar. Abaixe-se para não ser derrubado, cubra a cabeça e o pescoço com um braço ou com um objeto rígido enquanto se abriga sob uma mesa, e segure firme nessa mesa para que ela não se afaste de você durante os solavancos. Se não houver móvel por perto, agache-se junto a uma parede interna, longe de janelas, e proteja a cabeça com as duas mãos e os braços. É um gesto simples que reduz de forma expressiva o risco das lesões mais comuns.
Erro 5: conviver com móveis e objetos pesados sem fixação
Esse erro acontece muito antes do terremoto, no dia a dia, e é o que mais transforma um tremor moderado em cena de feridos. Estantes altas, armários, televisores grandes, aquecedores, quadros pesados e objetos no alto das prateleiras viram projéteis quando o chão se mexe. Não é raro que a pessoa se abrigue corretamente e, ainda assim, seja atingida por um móvel que tomba justamente sobre o local do abrigo.
O que fazer no lugar: prevenção em casa, com calma, num fim de semana qualquer. Prenda estantes e armários altos à parede com suportes ou cintas. Não deixe objetos pesados nas prateleiras de cima; guarde-os embaixo. Evite pendurar quadros grandes e espelhos sobre a cabeceira da cama ou sobre o sofá onde as pessoas passam mais tempo. Nos Açores e em outras zonas de risco de Portugal, essa fixação já é um hábito recomendado pela Proteção Civil, e faz toda a diferença. É o tipo de cuidado invisível que ninguém percebe, até o dia em que ele evita um acidente.
Erro 6: voltar cedo demais para dentro por causa das réplicas
Passou o tremor, veio o alívio, e a tentação é imediata: entrar de novo para buscar o celular, o documento, o animal de estimação, para ver como ficou a casa. Esse é um erro perigoso porque terremotos costumam vir acompanhados de réplicas, tremores secundários que podem acontecer minutos, horas ou dias depois. Uma estrutura já enfraquecida pelo primeiro abalo pode ceder na réplica, e muitas lesões graves acontecem nesse momento de retorno apressado, quando a pessoa baixa a guarda.
O que fazer no lugar: depois de sair, afaste-se do prédio e de muros, postes e fiação, e vá para um espaço aberto. Não volte para dentro de uma edificação que sofreu danos visíveis, como rachaduras grandes, portas emperradas ou cheiro de gás. Espere a orientação do Corpo de Bombeiros e da Defesa Civil, ou da Proteção Civil, no caso de Portugal. Se sentir cheiro de gás, não acione interruptores nem acenda nada. A pressa de reentrar é compreensível, mas é ela que costuma cobrar o preço mais alto.
Erro 7: não ter plano nem kit de emergência
O último erro é o mais silencioso, porque não aparece no momento do tremor, e sim na hora do improviso. Quem nunca conversou em família sobre o que fazer acaba tomando decisões ruins sob pânico: cada um corre para um lado, ninguém sabe onde encontrar o outro, e faltam itens básicos justamente quando a luz cai e a água some. A ausência de preparo não fere diretamente, mas multiplica todos os outros erros.
O que fazer no lugar: combine com a família um ponto de encontro fora de casa e um contato de referência, de preferência alguém de outra cidade, para o caso de as linhas locais congestionarem. Ensine todos, inclusive as crianças, o gesto de abaixar, cobrir e segurar, e faça um pequeno ensaio de vez em quando; é o mesmo raciocínio dos simulados de incêndio na escola, e funciona porque o corpo aprende a reagir sem pensar. Deixe preparado um kit simples com lanterna, água, alguns alimentos que não estragam, cópia de documentos, um rádio a pilha e os medicamentos de uso contínuo. Não precisa ser nada elaborado; precisa estar pronto antes.
Um comentário sobre o mito do “triângulo da vida”
Vale a pena esclarecer, porque esse boato viaja rápido nas redes sociais. O chamado “triângulo da vida” sugere deitar-se ao lado de móveis grandes, e não embaixo deles, na expectativa de que se forme um vão de proteção quando o teto desaba. Essa ideia é contestada pelas principais organizações de gestão de emergências e não deve substituir a orientação padrão. Em construções modernas, o desabamento total é a exceção, e a esmagadora maioria das lesões vem de objetos que caem durante o tremor. Por isso a recomendação consolidada, ensinada por bombeiros e defesas civis mundo afora, continua sendo abaixar, cobrir e segurar. Simples, testada e fácil de lembrar sob estresse, que é exatamente o que se precisa de uma orientação de emergência.
No fim das contas, sobreviver bem a um terremoto tem menos a ver com sorte e mais a ver com hábitos formados antes. Fixar uma estante num sábado à tarde, ensinar as crianças a se abaixarem e se cobrirem, resistir ao impulso de correr para a rua ou de reentrar cedo demais: são gestos pequenos, quase banais, e é essa banalidade que engana. Nenhum deles parece heroico, mas é a soma deles que decide se um tremor será uma história de susto ou uma ida ao pronto-socorro. Prepare-se com calma, converse com quem mora com você e deixe o essencial resolvido enquanto está tudo tranquilo. Quando a terra se mexer, você não vai ter tempo de pensar; vai apenas fazer o que já treinou. E, na minha experiência, é isso que separa quem passa por um terremoto de quem se machuca nele.
Fontes oficiais
Para alertas e orientações atualizadas, acompanhe sempre os canais oficiais de proteção e defesa civil da sua região:
- Proteção e Defesa Civil (Brasil)
- CEMADEN — monitoramento e alertas (Brasil)
- INMET — meteorologia (Brasil)
- Proteção Civil (Portugal)
- IPMA — meteorologia e sismologia (Portugal)
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